Não basta aquecer. É preciso aquecer da forma certa

Jota Personal Trainer 24/06/2026 6 min

1.O aquecimento é só uma rotina?

Durante muito tempo, o aquecimento foi visto apenas como uma preparação para o treino ou competição. Uns minutos de corrida leve, uns alongamentos, e toca a começar.

Muitas equipas ainda fazem exatamente isto.

Mas será que um aquecimento bem estruturado pode fazer muito mais do que isso?

2.O estudo

Ding e colegas (2022) publicaram uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu 15 estudos de alta qualidade, abrangendo mais de 21 500 crianças e adolescentes.

O objetivo: perceber se programas estruturados de aquecimento conseguem reduzir o risco de lesão em jovens atletas — nos membros superiores e inferiores.

O resultado principal:

Redução de 36% na taxa de lesão nos grupos que seguiram programas de aquecimento estruturados, já tendo em conta as horas de exposição ao risco.

Uma análise de viés de publicação sugeriu uma estimativa ligeiramente mais conservadora — cerca de 30% de redução. Continua a ser um efeito substancial.

Para pôr em contexto: poucas intervenções em desporto juvenil produzem uma redução desta magnitude, e esta custa 15 minutos antes de cada sessão.

3.Nem todo o aquecimento serve

Aqui está a parte que desafia o que muitas equipas ainda fazem.

O tipo de aquecimento mais eficaz foi o de controlo neuromuscular e equilíbrio.

Não é correr à volta do campo. Não são alongamentos estáticos prolongados.

Um programa eficaz inclui tipicamente:

  • Corrida com variações — mudanças de direção, aceleração e travagem controladas
  • Trabalho de força — sobretudo membros inferiores e core
  • Equilíbrio e propriocepção — apoio unipodal, superfícies instáveis
  • Técnica de aterragem e corte — como travar e mudar de direção sem colapsar o joelho
  • Duração de 15 a 20 minutos

É o modelo de programas como o FIFA 11+, que tem sido dos mais estudados.

Nota importante sobre alongamentos: alongamento estático prolongado antes do esforço não demonstrou eficácia preventiva, e pode comprometer temporariamente a altura de salto, a força e a ativação muscular. Não é que faça mal — é que não faz o que muita gente pensa que faz.

4.O fator que mais pesa: a adesão

A análise de subgrupos identificou a adesão ao programa como o único moderador significativo dos resultados.

Traduzindo: o melhor programa do mundo não previne nada se for feito de forma irregular, apressada, ou se metade da equipa não o levar a sério.

Isto muda a prioridade. Antes de procurares o protocolo perfeito, garante que o protocolo que tens é efetivamente cumprido, sessão após sessão.

Um programa razoável feito sempre bate um programa excelente feito às vezes.

5.Como aplicar isto?

Se treinas ou acompanhas jovens atletas:

  • Adota um programa estruturado e reconhecido, em vez de improvisar
  • 15 a 20 minutos, antes de todos os treinos — não só antes dos jogos
  • Foca em controlo neuromuscular, equilíbrio e técnica de aterragem
  • Trata o aquecimento como parte do treino, não como preliminar
  • Mede a adesão. É o fator que mais determina o resultado

Se treinas sozinho no ginásio:

Os princípios transferem-se, mesmo que o contexto seja outro:

  • Ativação geral e elevação da temperatura corporal
  • Mobilidade específica das articulações que vais usar
  • Séries de aproximação progressivas antes das séries pesadas
  • Movimento preparatório, não alongamento estático prolongado

Estás a preparar o sistema nervoso, não só o músculo.

6.Conclusão

Não basta aquecer. É preciso aquecer da forma certa.

Estamos a dar ao aquecimento a importância que ele merece? Na maioria dos casos, a resposta é não — e o custo disso conta-se em lesões que podiam ter sido evitadas.

O que a ciência realmente mostrou, sem exageros e sem modas.


Referência: Ding, L., Luo, J., Smith, D. M., Mackey, M., Fu, H., Davis, M., & Hu, Y. (2022). Effectiveness of Warm-Up Intervention Programs to Prevent Sports Injuries among Children and Adolescents: A Systematic Review and Meta-Analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health, 19(10), 6336.