Estudo do dia: serão os adutores realmente importantes na prevenção da dor na virilha?
1.Existe um fator que permita prever o risco?
A dor na virilha é uma das lesões mais frequentes no desporto — sobretudo em modalidades com mudanças de direção, sprints, remates e travagens.
Instala-se devagar, arrasta-se por semanas e recidiva com facilidade.
A pergunta que interessa a quem treina e a quem acompanha atletas é simples: será que existe um fator que permita identificar quem tem maior risco de a desenvolver?
Se existir, é aí que a prevenção deve concentrar-se.
2.O estudo
Quintana-Cepedal e colegas (2024) publicaram no British Journal of Sports Medicine uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu dados de 1516 atletas saudáveis.
O objetivo: analisar a relação entre a força dos adutores, a força dos abdutores e o aparecimento futuro de dor na virilha.
O ponto-chave do desenho: os estudos incluídos eram prospetivos. Mediram a força primeiro, em atletas sem lesão, e acompanharam-nos ao longo do tempo para ver quem se lesionava.
Isto permite falar de risco, e não apenas de associação retrospetiva.
3.Os resultados
Força dos adutores: os atletas que desenvolveram dor na virilha apresentavam, em média, menor força dos músculos adutores quando comparados com os que permaneceram sem lesão. O efeito foi moderado — e mais marcado ainda nas lesões que implicaram perda efetiva de tempo de prática.
Força dos abdutores: não demonstrou estar associada ao risco de desenvolver dor na virilha.
Rácio adutores/abdutores: e aqui está o dado mais interessante — o conhecido rácio entre os dois grupos também não se revelou um preditor significativo de lesão.
| Fator | Preditor de lesão? |
|---|---|
| Força dos adutores | Sim — efeito moderado |
| Força dos abdutores | Não |
| Rácio adutores/abdutores | Não |
4.O que significa na prática?
Durante anos, a prevenção da dor na virilha organizou-se em torno da ideia de equilíbrio entre grupos musculares. Corrigir o rácio. Não deixar os adutores ficarem fracos em relação aos abdutores.
A evidência aponta noutra direção, e mais simples:
Mais do que procurar um equilíbrio entre grupos musculares, garantir uma boa força dos adutores pode ser um fator importante na redução do risco de dor na virilha — especialmente em atletas expostos a maiores exigências físicas.
Não é sobre proporção. É sobre força absoluta.
O que, na prática, torna a prevenção mais fácil de implementar: não precisas de testes de rácio nem de cálculos. Precisas de adutores fortes.
5.Como treinar?
- Exercício de adução de Copenhaga — o mais estudado, com evidência consistente de ganhos de força excêntrica dos adutores
- Começa na versão regredida — apoio no joelho — antes de avançar para a completa
- Prioriza o trabalho excêntrico — é onde está o maior estímulo protetor
- Inclui na pré-época e mantém durante a época — o efeito perde-se quando paras
- Trabalho unilateral — cada perna isoladamente, como acontece no jogo
- Progressão gradual — os adutores são sensíveis a saltos bruscos de carga
E, como em qualquer programa preventivo, a adesão consistente é o que mais determina o resultado.
6.Nota
Como sempre, é importante recordar que a prevenção de lesões não depende apenas de um único fator.
A gestão da carga de treino, a recuperação, a técnica e um programa de treino bem estruturado continuam a desempenhar um papel fundamental.
Os adutores fortes são uma peça importante. Não são a peça única.
Vale ainda referir uma limitação assinalada pelos próprios autores: a maioria dos casos de dor na virilha incluídos era de origem adutora, e a região da virilha pode gerar dor por várias causas clínicas distintas, com fatores de risco diferentes entre si.
Referência: Quintana-Cepedal, M., Vicente-Rodríguez, G., Crespo, I., & Olmedillas, H. (2024). Is hip adductor or abductor strength in healthy athletes associated with future groin pain? A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine. https://doi.org/10.1136/bjsports-2024-108836