Adutores: será que estás a dar-lhes a importância que merecem?
1.A lesão que trava época atrás de época
As dores na virilha são uma das lesões mais frequentes em muitos desportos — sobretudo naqueles com mudanças de direção, sprints, remates e travagens bruscas.
Futebol, andebol, hóquei, râguebi. Todos partilham o mesmo problema.
E são das lesões mais frustrantes: instalam-se devagar, arrastam-se por semanas e recidivam com facilidade.
Durante anos, a prevenção passou por diferentes estratégias. Mas será que estamos realmente a treinar aquilo que mais influencia o risco de as desenvolver?
2.A crença dominante: o equilíbrio adutores/abdutores
A ideia que se instalou foi esta: o problema é o desequilíbrio.
Se os adutores estiverem fracos em relação aos abdutores, o rácio fica alterado e a virilha fica vulnerável. Logo, a prevenção passaria por corrigir esse rácio — equilibrar os dois grupos musculares.
É uma hipótese elegante e intuitiva. Passou para os manuais, para as fichas de avaliação e para as rotinas de milhares de equipas.
Mas será que é mesmo esse o fator mais importante?
3.O estudo
Quintana-Cepedal e colegas (2024) publicaram no British Journal of Sports Medicine uma revisão sistemática com meta-análise sobre exatamente esta questão.
O que analisaram: a associação entre força de adução, força de abdução e o rácio adução/abdução com a ocorrência futura de dor na virilha em atletas saudáveis.
Como: 13 estudos de coorte prospetivos — ou seja, mediram a força antes e acompanharam os atletas ao longo do tempo para ver quem se lesionava. O risco de viés global foi classificado como baixo.
Este desenho é importante: não é olhar para atletas já lesionados e procurar explicações. É medir primeiro e esperar para ver.
4.Os resultados
| Fator medido | Associação com dor na virilha |
|---|---|
| Força de adução | Efeito moderado — confirmado |
| Força de abdução | Efeito trivial — praticamente nulo |
| Rácio adução/abdução | Efeito trivial — praticamente nulo |
Os jogadores que se mantiveram sem lesão tinham maior força de adução do que aqueles que vieram a sofrer dor na virilha. O efeito foi ainda mais marcado quando se olhou apenas para lesões com perda efetiva de tempo de prática.
Já a força de abdução e o famoso rácio entre os dois grupos? Sem relação significativa com a ocorrência de lesão.
A conclusão dos autores é direta: existe um efeito moderado da força dos adutores na ocorrência de dor na virilha, mas não há relação nem com a força dos abdutores nem com o rácio entre ambos.
5.O que muda?
A mensagem prática é mais simples do que a crença que substitui.
Não é sobre equilíbrio. É sobre força absoluta dos adutores.
Não precisas de calcular rácios, nem de te preocupar em "não deixar os abdutores ficarem fortes demais". O que a evidência aponta é mais direto: adutores fracos são o fator de risco. Adutores fortes protegem.
Isto simplifica a prevenção — e explica porque tantos programas focados no equilíbrio produziram resultados inconsistentes ao longo dos anos.
Uma nota de honestidade sobre as limitações: a maioria dos casos de dor na virilha incluídos era de origem adutora, o que pode ajudar a explicar a relação encontrada. E a região da virilha pode gerar dor por várias causas clínicas distintas, com fatores de risco diferentes entre si.
6.Como treinar abdutores?
- Exercício de adução de Copenhaga — o mais estudado para força excêntrica dos adutores, com evidência consistente de ganhos
- Progressão gradual — começa na versão com apoio no joelho antes de avançar para a versão completa
- Trabalho excêntrico — é onde está o maior estímulo protetor
- Inclui na pré-época e mantém durante a época — o efeito perde-se se parares
- Trabalho unilateral — cada perna trabalha isoladamente, como no jogo
- Adutores também trabalham em agachamentos e avanços, mas raramente com estímulo específico suficiente
E, como em qualquer programa preventivo: a adesão é o que mais determina o resultado final.
7.Conclusão
Prevenir lesões não é questão de sorte. É uma questão de preparação.
Se treinas ou acompanhas atletas em desportos com mudanças de direção, os adutores merecem trabalho específico e sistemático — não uns exercícios ocasionais no fim da sessão.
Será que estás a dar-lhes a importância que merecem?
Referência: Quintana-Cepedal, M., et al. (2024). Is hip adductor or abductor strength in healthy athletes associated with future groin pain? A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine. doi: 10.1136/bjsports-2024-108836