Adutores: será que estás a dar-lhes a importância que merecem?

Jota Personal Trainer 22/07/2026 6 min

1.A lesão que trava época atrás de época

As dores na virilha são uma das lesões mais frequentes em muitos desportos — sobretudo naqueles com mudanças de direção, sprints, remates e travagens bruscas.

Futebol, andebol, hóquei, râguebi. Todos partilham o mesmo problema.

E são das lesões mais frustrantes: instalam-se devagar, arrastam-se por semanas e recidivam com facilidade.

Durante anos, a prevenção passou por diferentes estratégias. Mas será que estamos realmente a treinar aquilo que mais influencia o risco de as desenvolver?

2.A crença dominante: o equilíbrio adutores/abdutores

A ideia que se instalou foi esta: o problema é o desequilíbrio.

Se os adutores estiverem fracos em relação aos abdutores, o rácio fica alterado e a virilha fica vulnerável. Logo, a prevenção passaria por corrigir esse rácio — equilibrar os dois grupos musculares.

É uma hipótese elegante e intuitiva. Passou para os manuais, para as fichas de avaliação e para as rotinas de milhares de equipas.

Mas será que é mesmo esse o fator mais importante?

3.O estudo

Quintana-Cepedal e colegas (2024) publicaram no British Journal of Sports Medicine uma revisão sistemática com meta-análise sobre exatamente esta questão.

O que analisaram: a associação entre força de adução, força de abdução e o rácio adução/abdução com a ocorrência futura de dor na virilha em atletas saudáveis.

Como: 13 estudos de coorte prospetivos — ou seja, mediram a força antes e acompanharam os atletas ao longo do tempo para ver quem se lesionava. O risco de viés global foi classificado como baixo.

Este desenho é importante: não é olhar para atletas já lesionados e procurar explicações. É medir primeiro e esperar para ver.

4.Os resultados

Fator medido Associação com dor na virilha
Força de adução Efeito moderado — confirmado
Força de abdução Efeito trivial — praticamente nulo
Rácio adução/abdução Efeito trivial — praticamente nulo

Os jogadores que se mantiveram sem lesão tinham maior força de adução do que aqueles que vieram a sofrer dor na virilha. O efeito foi ainda mais marcado quando se olhou apenas para lesões com perda efetiva de tempo de prática.

Já a força de abdução e o famoso rácio entre os dois grupos? Sem relação significativa com a ocorrência de lesão.

A conclusão dos autores é direta: existe um efeito moderado da força dos adutores na ocorrência de dor na virilha, mas não há relação nem com a força dos abdutores nem com o rácio entre ambos.

5.O que muda?

A mensagem prática é mais simples do que a crença que substitui.

Não é sobre equilíbrio. É sobre força absoluta dos adutores.

Não precisas de calcular rácios, nem de te preocupar em "não deixar os abdutores ficarem fortes demais". O que a evidência aponta é mais direto: adutores fracos são o fator de risco. Adutores fortes protegem.

Isto simplifica a prevenção — e explica porque tantos programas focados no equilíbrio produziram resultados inconsistentes ao longo dos anos.

Uma nota de honestidade sobre as limitações: a maioria dos casos de dor na virilha incluídos era de origem adutora, o que pode ajudar a explicar a relação encontrada. E a região da virilha pode gerar dor por várias causas clínicas distintas, com fatores de risco diferentes entre si.

6.Como treinar abdutores?

  • Exercício de adução de Copenhaga — o mais estudado para força excêntrica dos adutores, com evidência consistente de ganhos
  • Progressão gradual — começa na versão com apoio no joelho antes de avançar para a versão completa
  • Trabalho excêntrico — é onde está o maior estímulo protetor
  • Inclui na pré-época e mantém durante a época — o efeito perde-se se parares
  • Trabalho unilateral — cada perna trabalha isoladamente, como no jogo
  • Adutores também trabalham em agachamentos e avanços, mas raramente com estímulo específico suficiente

E, como em qualquer programa preventivo: a adesão é o que mais determina o resultado final.

7.Conclusão

Prevenir lesões não é questão de sorte. É uma questão de preparação.

Se treinas ou acompanhas atletas em desportos com mudanças de direção, os adutores merecem trabalho específico e sistemático — não uns exercícios ocasionais no fim da sessão.

Será que estás a dar-lhes a importância que merecem?


Referência: Quintana-Cepedal, M., et al. (2024). Is hip adductor or abductor strength in healthy athletes associated with future groin pain? A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine. doi: 10.1136/bjsports-2024-108836